Não sei se todos os escritores quiseram ser escritores. Penso que muitos queriam apenas dar conta da vida (pense na literariedade desta expressão mastigando-a devagar) e escrever foi o jeito que deram. "Querer ser" é vaidoso e escasso, é uma incompletude que se pretende findar, assim, quando não é possível, ficam o ressentimento e a fúria por não ter conseguido ser. Mas alguém fica triste por não ter conseguido ser escritor? Pode ficar triste por não ter sido reconhecido, por não ter sido lido, pois essas são as tramas da vaidade, mas não dá para não ser escritor quando você... escreve! E os que se dizem escritores, mas não praticam a labuta das letras (sobretudo com a automação da IA), simplesmente não o são. Eu não sou padeira só porque coloco o pão de queijo congelado do mercado no forno. Assim, o argumento é simples: ninguém que transmita reiterada e intencionalmente sua narração em palavras (orais ou escritas) quer ser escritor, porque é. Eu não quero ser humana, porque sou. (Eu sei que omiti os "o" dos predicativos anafóricos desde o primeiro período.) Que tristeza as pessoas acharem que ser escritor é coisa de glamour, que ser escritor é ser alguém de echarpe e óculos fumê falando por aí sobre escrita sem ter escrito nada ou sem ter escrito muito. Só essa imagem já indica o problema das nossas representações anacrônica e geograficamente descoladas de nós. Eu nunca quis ser escritora, queria ser, isto sim: mais sagaz para ler direito as pessoas; mais fria; mais irredutível.
Se a escrita não me falta — eu é que falto a ela —, então não quero ser escritora, porque já sou, e isso não significa nada digno de vaidade.
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